Não é pessimismo, nem pose, como diria Gessinger. Mas me encomoda profundamente a maneira como necessitamos TER. EU TENHO: roupas, calçados, móveis, acessórios, shampoo, lugar pra dormir, um estágio, família, amigos(acredito eu), namorado, ex-namorado, vontades, uma gatinha, livros, cds e diversas coisas que não me cabem agora descrevê-las, mas... será que cabem no MEU bolso?
Ainda não descobri a forma de carregar tudo comigo, a não ser na minha imaginação, que por sinal é imaterial, assim, transformo tudo em matéria, ou tudo o que já é matéria, em memória, lembrança, sentimento, seja lá o que for imaterial para que eu consiga carregar comigo tudo o que é MEU.
Mas o problema terrível que percebo, não é a posse das minhas coisas, afinal tenho plena consciência de que elas são necessárias, talvez nem tanto, para a minha sobrevivência. E acho que poucos percebem onde reside o problema. Um professor meu, baseado em outros professores, baseados em Marx, daria o nome de REIFICAÇÃO para esse fenômeno que não me engano em acreditar que descobri(se até nome já tem!!)...
O problema reside em coisificar as pessoas para tomar posse delas, mas oras, são PESSOAS!!! Como posso eu, na minha humilde vida, tomar posse de outras vidas? Ainda acredito em liberdade, no sentido que dou a essa palavra, e realmente, com toda a minha fé, acredito que as pessoas não são coisas, e são livres de qualquer posse, a não ser em caso de escravidão.
Não quero estar equivocada, mas devo relacionar o sentimento de posse com a influência do modo de produção capitalista,mesmo sabendo que deveria estudar muito para buscar as raízes dessa possessividade dos seres humanos... o que seria muito interessante. Quero ressaltar, não a base, mas o desenvolvimento desse sentimento num sistema que oferece liberdade de compra, de posse, de empréstimo e acaba trazendo para a existência e relacionamento humano a mesma lógica de mercado.
E assim, ficamos limitados a prender, a possuir e esquecemos da liberdade que podemos ter se não nos submetemos à essas lógicas, sejam culturais, econômicas, ou seja da vontade do ser, que em muito está tiranizada pelo modo de agir e influenciar das maiorias (um pouco de Tocqueville)...